Mudança de sexo em autistas: "É fundamental dar tempo e não ceder a pressões"
Entrevista por Marisa Antunes · 17 de agosto de 2024
Saúde Mental
Autismo
Um alerta crescente em Portugal
Com o aumento de pessoas que mudam de sexo em Portugal, o psiquiatra Carlos Nunes Filipe é um dos que pede maior rigor nos diagnósticos de disforia de género, alertando para o risco da "intervenção médica" criar "situações definitivas, numa situação que pode ser transitória".
Em Portugal, por semana
10 pessoas mudam de nome e género no Cartão de Cidadão, das quais 1 é menor. Cerca de 60% são raparigas a transacionar para rapazes.
Um fenómeno preocupante
Muitos destes jovens avançam para a medicalização — um número que tem crescido exponencialmente e que tem alarmado muitos profissionais de saúde mental em Portugal e em vários países ocidentais, que alertam para o fenómeno de contágio social.
Particularmente vulneráveis a este contágio estão os jovens com neurodiversidade no espectro do autismo, como revelam vários estudos publicados sobre esta matéria.
O especialista: Carlos Nunes Filipe
Psiquiatra e Professor Catedrático
NOVA Medical School – Faculdade de Ciências Médicas
Diretor Clínico
Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (APPDA)
Autor
Crescer e viver diferente e Autismo – Conceitos, mitos e preconceitos
O caso Tavistock
O exemplo mais flagrante da correlação entre autismo e predisposição para a identidade transgénero pode ser encontrado no Tavistock, que chegou a ser o maior hospital de medicina de género britânico e de toda a Eu
ropa.

35% dos jovens pacientes que passaram pelo Tavistock sofriam de autismo moderado ou severo.
O Tavistock foi entretanto encerrado por suspeitas de má prática clínica e diagnósticos apressados em jovens com questões identitárias. A investigação coordenada por Hillary Cass — o Cass Report — está a provocar uma revolução na prática clínica da medicina de género no Reino Unido, com a interdição dos bloqueadores hormonais e a abertura de uma unidade de acompanhamento de pessoas em destransição.
Porque são os jovens autistas mais suscetíveis?
Casos de jovens detransitioners associados à Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) multiplicam-se em todo o mundo — como os de Susana Dominguez (Espanha), Chloe Cole (EUA) e Ritchie Herron (Reino Unido). O Dr. Carlos Nunes Filipe explica as razões desta vulnerabilidade:
1
Perturbação sensorial
Existe uma perturbação da integração sensorial que leva a uma perceção do corpo diferente da população em geral.
2
Puberdade tardia
Na população com autismo a puberdade é frequentemente mais tardia do que a média, tornando as mudanças corporais mais perturbadoras.
3
Pensamento abstrato
A dificuldade em integrar informação e gerar pensamentos abstratos dificulta a passagem para a interação social complexa que a sexualidade adulta requer.
4
Mimetismo social
As manifestações de interesse/orientação sexual são mais fruto da tentativa de imitação social do que da atração ou necessidade sentida pelo jovem.
Bullying e segregação
Os adolescentes com PEA são frequentemente vítimas de bullying, levando-os a aderir a grupos mais restritos que os aceitam melhor.
Rigidez de interesses
A marcada restrição de interesses pode determinar uma adesão extrema a causas e orientações sociais.
Défice cognitivo associado
A coexistência de algum grau de défice cognitivo com a PEA pode agravar ainda mais todos os fatores enumerados.

Muitos jovens com perturbações do desenvolvimento que referem disforia de género acreditam verdadeiramente que a intervenção médica e/ou cirúrgica irá alterar o seu sofrimento mental. Sabemos que não é assim. É cada vez maior o número de casos em que o sofrimento aumentou.
Pressão social, media e o tempo como único árbitro
"A pressão social e dos media sobre estas pessoas é muito grande e pode determinar decisões precipitadas e muito graves. Em muitos meios passou-se de uma discriminação de género para uma cultura de género."
Disforia persistente vs. transitória
Não existe nenhum teste que permita distinguir com segurança uma disforia de género persistente (que persistirá até à vida adulta) de uma disforia de género transitória da adolescência — esta última porventura muito mais frequente.

Só o tempo permite distinguir uma da outra. A intervenção médica, criando situações definitivas numa situação que pode ser transitória, é de enorme gravidade. Os efeitos a longo prazo são sempre muito difíceis de prever em cada caso.
Disforia persistente
Continuada, presente desde a infância, mantém-se na vida adulta. Requer acompanhamento especializado e prolongado.
Disforia transitória
Surge subitamente na adolescência, frequentemente associada a pressão de grupo, redes sociais e vulnerabilidade neurodivergente.
Modelos terapêuticos em confronto
A psicoterapeuta Stella O'Malley, fundadora da Genspect, tem-se destacado mundialmente na consciencialização do fenómeno trans e da necessidade de uma abordagem terapêutica mais holística e menos medicalizada — em linha com o que já é seguido na Dinamarca, Suécia e Reino Unido.
Modelo Afirmativo (WPATH)
Assente na auto-identificação de género da pessoa, sem um questionamento muito profundo do que levou o/a jovem a afirmar-se do género oposto. É o modelo seguido atualmente em Portugal.
Abordagem Holística
Defende uma avaliação aprofundada antes de qualquer intervenção, considerando fatores psicológicos, sociais e de neurodesenvolvimento. Adotada progressivamente no norte da Europa.
"Tendo sido identificados fatores de risco ou situações que, por si, possam alterar a perceção do género experimentado/expresso, não é lícito intervir diretamente, por meios médicos ou cirúrgicos, na expressão biológica e/ou anatómica do género, mais ainda tratando-se de menores de idade."
— Dr. Carlos Nunes Filipe
Conselhos para jovens e famílias
O Dr. Carlos Nunes Filipe deixa orientações claras para todos os casos de adolescentes que referem disforia de género:
Este processo rigoroso é essencial para garantir que nenhuma decisão irreversível seja tomada sem o devido enquadramento clínico e temporal.
Para os jovens
  • Não tomar decisões precipitadas sob pressão social ou dos media
  • Procurar acompanhamento especializado e multidisciplinar
  • Dar tempo ao processo de autoconhecimento
Para os pais e famílias
  • Exigir uma avaliação psiquiátrica/psicológica completa antes de qualquer passo
  • Garantir que profissionais com experiência em PEA estejam envolvidos
  • Não ceder a pressões externas — o tempo é o melhor aliado

"Nos casos de disforia de género é fundamental dar tempo e não ceder a pressões. Muitas dúvidas há que só o tempo as poderá esclarecer…"
"Na dúvida, não intervir"
A mensagem final do Dr. Carlos Nunes Filipe é clara e inequívoca:
"Na dúvida não intervir na 'correção' médica da disforia de género. Intervir, isso sim, no tratamento das perturbações associadas que tenham sido identificadas."
— Dr. Carlos Nunes Filipe, Psiquiatra e Professor Catedrático
Dar Tempo
Só o tempo permite distinguir uma disforia persistente de uma transitória. A pressa pode criar situações definitivas e irreversíveis.
Avaliar Primeiro
Antes de qualquer intervenção hormonal ou cirúrgica, é imperativo despistar perturbações do neurodesenvolvimento e condições psiquiátricas associadas.
Proteger os Menores
Tratando-se de menores de idade, a responsabilidade clínica e ética de não intervir precipitadamente é ainda maior e mais urgente.